Menopausa e metabolismo

Barriga na menopausa: por que ela cresce mesmo sem o peso mudar

O estudo SWAN acompanhou 1.246 mulheres: na transição, o ganho de gordura quase dobra e o músculo começa a cair. Entenda o mecanismo e o que fazer.

Mulher mais velha fazendo exercício na academia
Mulher mais velha fazendo exercício na academia. Foto: Centre for Ageing Better / Unsplash
Neste artigo
  1. Peso estável, cintura maior: o que muda na composição do corpo
  2. O estudo SWAN: 1.246 mulheres acompanhadas por anos
  3. Os resultados do SWAN
  4. Gordura abdominal na menopausa
  5. O mecanismo, em linguagem simples
  6. Os limites desses estudos
  7. O que fazer na prática
  8. Quando procurar um médico
  9. Perguntas frequentes

Em resumo

  • Na transição para a menopausa, o ganho de gordura sobe de cerca de 0,25 para 0,45 kg por ano.
  • Ao mesmo tempo, a massa magra passa a cair; por isso a cintura muda antes da balança.
  • A gordura visceral só aumentou de forma significativa nas mulheres que entraram na menopausa.

Peso estável, cintura maior: o que muda na composição do corpo

No estudo SWAN, que acompanhou 1.246 mulheres, o ganho de gordura subiu para cerca de 0,45 kg por ano durante a transição para a menopausa, quase o dobro de antes, e o músculo passou a cair. O peso continuou subindo cerca de 0,25 kg por ano, sem acelerar.

Isso explica por que a balança pode mostrar quase o mesmo número enquanto a roupa deixa de servir: nessa fase, o que muda primeiro é a composição do corpo.

O estudo SWAN: 1.246 mulheres acompanhadas por anos

O SWAN (sigla em inglês para “Estudo da Saúde da Mulher pelo País”) é um dos maiores estudos já feitos sobre a menopausa, nos Estados Unidos. As mulheres entraram com 42 a 52 anos, antes da menopausa, e foram acompanhadas por mais de uma década, com exames anuais.

Em 2019, a pesquisadora Gail Greendale e colegas publicaram na revista JCI Insight a análise da composição do corpo dessas mulheres (Greendale et al., 2019). Foram 1.246 mulheres (negras, brancas, chinesas e japonesas), com gordura e músculo medidos por densitometria (DXA), o exame que separa o que é gordura, o que é músculo e o que é osso.

A pergunta era: a menopausa muda o corpo além do que a idade, sozinha, mudaria?

Os resultados do SWAN

O estudo organizou os dados em relação à última menstruação de cada mulher:

  • Antes da transição, a mulher média ganhava cerca de 0,25 kg de gordura por ano.
  • Durante a transição para a menopausa, esse ganho subiu para cerca de 0,45 kg de gordura por ano. Quase o dobro.
  • Ao mesmo tempo, o músculo (massa magra) passou a cair, cerca de 0,06 kg por ano.
  • E o peso? Continuou subindo cerca de 0,25 kg por ano, sem acelerar no início da transição.
  • Essas mudanças de gordura e músculo continuaram até cerca de 2 anos depois da última menstruação e depois se estabilizaram.

Os autores resumiram assim: o ganho acelerado de gordura e a perda de músculo são fenômenos ligados à transição da menopausa.

Agora junte as peças. A gordura sobe mais rápido, o músculo cai, e um efeito “esconde” o outro na balança. É por isso que o número quase não muda, mas o corpo muda.

Gordura abdominal na menopausa

O SWAN mediu o corpo inteiro, não a barriga. Os próprios autores disseram que não conseguiram avaliar a gordura por região nem a gordura visceral (a gordura que fica dentro do abdômen, em volta dos órgãos).

Para isso, olhamos outro estudo. Pesquisadores americanos, num estudo publicado no International Journal of Obesity, acompanharam por 4 anos 156 mulheres que começaram o estudo antes da menopausa, com exames anuais (Lovejoy et al., 2008). O que viram:

  • Todas as mulheres ganharam gordura embaixo da pele ao longo do tempo.
  • Mas a gordura visceral só aumentou de forma significativa nas mulheres que entraram na menopausa durante o estudo.
  • Nessas mulheres, a capacidade de queimar gordura caiu 32%, enquanto nas que continuaram menstruando não mudou.
  • O gasto de energia durante o sono caiu mais nas que entraram na menopausa.
  • Outro achado: a atividade física caiu de forma significativa cerca de 2 anos antes da menopausa e continuou baixa depois.

Então sim: a barriga da menopausa é real, foi medida e tem explicação.

O mecanismo, em linguagem simples

Pense no corpo como uma casa com dois tipos de móveis: músculo e gordura.

O músculo é o móvel que gasta energia o tempo todo, segura a glicose do sangue e protege os ossos. A gordura é o depósito.

Na transição da menopausa, os pesquisadores ligam essas mudanças à virada hormonal, que muda onde e como o corpo guarda energia. Os estudos acima mostram o resultado: o depósito cresce mais rápido, especialmente dentro da barriga, e o móvel que gasta energia diminui. Some a isso uma queda na atividade física e uma menor capacidade de queimar gordura, e você tem o cenário perfeito para a cintura crescer sem a balança “avisar”.

O lado bom: músculo é a parte que você consegue proteger.

Os limites desses estudos

  • São estudos observacionais. Eles acompanharam mulheres e mediram o que aconteceu. Mostram o que muda e quando, mas não testaram nenhum tratamento.
  • O SWAN não mediu a gordura da barriga. A parte da barriga vem do estudo de Lovejoy, que é menor (156 mulheres, e só 34 fizeram a medida de gasto de energia em câmara).
  • As médias escondem diferenças. Algumas mulheres ganham muito mais, outras quase nada. Sono, estresse, alimentação e genética também contam.
  • Os estudos foram feitos nos Estados Unidos. A mulher brasileira não foi estudada diretamente.

O que fazer na prática

  1. Pare de olhar só a balança. Meça a cintura uma vez por mês, no mesmo lugar (na altura do umbigo), e repare em como a roupa veste. Na menopausa, esse número diz mais que o peso.
  2. Treino de força 2 a 3 vezes por semana. Musculação, elástico, pilates com carga, subir escada. É o que mais protege o músculo, que é exatamente o que o SWAN mostrou que começa a cair.
  3. Proteína em todas as refeições. Ovo, frango, peixe, carne, feijão, lentilha, iogurte natural. Sem proteína, não há com o que construir músculo.
  4. Volte a se mexer no dia a dia. Se a atividade cai nos anos antes da menopausa, compense de propósito: caminhar depois das refeições, subir escada, andar mais.
  5. Feche a cozinha cedo. Comer tarde aumenta a fome e reduz o gasto de energia, como explicamos neste artigo sobre jantar tarde. E se você pensa em jejum nessa fase, leia antes o que os estudos mostram sobre jejum na menopausa.
  6. Corte os ultraprocessados que puder. Eles fazem a pessoa comer mais sem perceber (veja o estudo).

Quando procurar um médico

Converse com o seu ginecologista ou clínico sobre a transição da menopausa, inclusive sobre terapia hormonal, que é uma decisão individual. Procure atendimento sem demora se tiver sangramento depois de 12 meses sem menstruar, aumento rápido da barriga com sensação de inchaço persistente, perda de peso sem explicação, ou se a cintura vier crescendo junto com pressão alta, glicose alta ou colesterol alterado.

Perguntas frequentes

Por que a barriga cresce na menopausa?
Na transição da menopausa, o ganho de gordura acelera e o músculo começa a cair (estudo SWAN, 2019). Um estudo de 4 anos mostrou que a gordura visceral, dentro do abdômen, aumentou de forma significativa só nas mulheres que entraram na menopausa.

Por que meu peso não mudou, mas meu corpo mudou?
Porque o ganho de gordura e a perda de músculo acontecem ao mesmo tempo. No SWAN, o peso subiu cerca de 0,25 kg por ano, sem acelerar, enquanto a gordura passou a subir 0,45 kg por ano.

A barriga da menopausa para de crescer?
No SWAN, as mudanças de gordura e músculo continuaram até cerca de 2 anos depois da última menstruação e depois se estabilizaram. Mas a gordura ganha não vai embora sozinha.

O que mais ajuda contra a barriga na menopausa?
Treino de força, proteína suficiente, atividade física no dia a dia, sono e controle dos horários de comer. Converse com o médico sobre terapia hormonal, que é uma decisão individual.

Referências

  1. Greendale GA, Sternfeld B, Huang M, et al. Changes in body composition and weight during the menopause transition. JCI Insight. 2019;4(5):e124865. PubMed → (texto completo: Ver fonte →)
  2. Lovejoy JC, Champagne CM, de Jonge L, et al. Increased visceral fat and decreased energy expenditure during the menopausal transition. Int J Obes. 2008;32:949-958. PubMed →

Como este texto foi feito

Escrito com apoio de ferramentas de pesquisa e revisado pelo Dr. Renato Silveira, que conferiu cada número no estudo original (linkado nas referências) e responde pelo conteúdo. Política editorial.

Transparência: o autor é diretor-geral do grupo NewHealth / H9 Pharma. Este artigo é educativo e não recomenda produtos da empresa. Conflitos de interesse.

Este conteúdo é educativo e não substitui consulta individual com médico ou outro profissional de saúde.