Mente e comportamento

Eixo intestino-cérebro: como o intestino influencia fome, humor e ansiedade

Estudos em pessoas mostram que o estresse altera o intestino e que a alimentação pode mexer com o humor. Veja o que já foi medido e o que ainda é hipótese.

Prato colorido de legumes, grãos e fibras
Prato colorido de legumes, grãos e fibras. Foto: Ella Olsson / Unsplash
Neste artigo
  1. Intestino, estresse e humor: o que os estudos mediram
  2. O que é o eixo intestino-cérebro
  3. Do cérebro para o intestino: o estudo do discurso em público
  4. Do intestino para o cérebro: a serotonina produzida no intestino
  5. Alimentação e sintomas de depressão: o estudo SMILES
  6. Eixo intestino-cérebro e controle da fome
  7. O que fazer na prática
  8. Quando procurar um médico
  9. Perguntas frequentes

Em resumo

  • Intestino e cérebro conversam por quatro vias: nervo vago, hormônios, imunidade e microbiota.
  • Estresse agudo dobrou um marcador de permeabilidade intestinal em quem teve cortisol alto.
  • Melhorar a alimentação, somada ao tratamento, levou 32,3% à remissão da depressão, contra 8,0%.

Intestino, estresse e humor: o que os estudos mediram

Na Universidade de Leuven, na Bélgica, a simples expectativa de falar em público dobrou um marcador de permeabilidade do intestino em voluntários saudáveis. Na Austrália, o estudo SMILES registrou remissão dos sintomas em 32,3% das pessoas com depressão que melhoraram a alimentação, contra 8,0% do grupo que recebeu apoio social.

Os dois resultados ilustram o que os cientistas chamam de eixo intestino-cérebro: uma comunicação que funciona nos dois sentidos e ajuda a explicar por que estresse, intestino e humor costumam mudar juntos.

O que é o eixo intestino-cérebro

Imagine duas cidades ligadas por várias estradas. Uma cidade é o cérebro. A outra é o intestino, onde vivem trilhões de bactérias (a microbiota). As estradas são:

  1. O nervo vago, um “cabo” direto que liga o intestino ao cérebro;
  2. Os hormônios do estresse, como o cortisol;
  3. O sistema imune, já que boa parte das nossas células de defesa fica perto do intestino;
  4. As substâncias que as bactérias produzem, que entram no sangue e agem no corpo inteiro.

Essa é a descrição de uma das maiores revisões já feitas sobre o tema, publicada na Physiological Reviews por pesquisadores da University College Cork, na Irlanda (Cryan et al., 2019). A conversa vai nos dois sentidos: o cérebro mexe com o intestino, e o intestino mexe com o cérebro.

Do cérebro para o intestino: o estudo do discurso em público

Este estudo merece atenção porque foi feito em pessoas, e não em camundongos.

Pesquisadores da Universidade de Leuven, na Bélgica, mediram a permeabilidade do intestino delgado de voluntários saudáveis. Permeabilidade é o quanto a parede do intestino deixa passar coisas que não deveria. Eles usaram um teste com dois açúcares que a pessoa bebe e depois são medidos na urina (Vanuytsel et al., 2014).

Aí eles criaram uma situação de estresse: a pessoa sabia que ia ter que falar em público.

O resultado:

  • A expectativa de falar em público dobrou o marcador de permeabilidade: de 0,030 no dia normal para 0,059.
  • O efeito só apareceu em quem teve aumento real de cortisol (quem de fato ficou estressado).
  • Quando eles aplicaram o hormônio que o cérebro libera no estresse (CRH), a permeabilidade também subiu.
  • Um remédio que estabiliza um tipo de célula de defesa do intestino (os mastócitos) bloqueou esse efeito.

Traduzindo: o estresse, sozinho, sem nenhuma comida diferente, abriu o intestino, e o caminho passou pelo hormônio do estresse e pelas células de defesa do próprio intestino.

Um detalhe honesto: foi um estudo pequeno (23 pessoas no primeiro experimento e 13 no segundo) e mediu um efeito agudo, de horas. Ele não prova que estresse crônico causa doença. Mas mostra o mecanismo funcionando em gente de verdade.

Do intestino para o cérebro: a serotonina produzida no intestino

Você já deve ter ouvido que “a serotonina é feita no intestino”. É verdade, mas vale entender direito.

Pesquisadores do Caltech, nos Estados Unidos, estudaram isso em camundongos. Segundo o próprio instituto, estima-se que cerca de 90% da serotonina do corpo seja produzida no trato digestivo (Caltech, 2015). No estudo, camundongos criados sem bactérias no intestino produziram cerca de 60% menos serotonina nas células do intestino. Quando as bactérias foram devolvidas, a produção voltou (Yano et al., 2015).

Um ponto importante: essa serotonina do intestino não é a mesma que age direto no cérebro. O próprio estudo se limitou à serotonina do intestino, que controla o movimento intestinal e outras funções do corpo. Então não é verdade que “consertar o intestino cura a depressão”. O que a ciência mostra é que o intestino participa da conversa.

Alimentação e sintomas de depressão: o estudo SMILES

Se o intestino participa da conversa, mudar a comida deveria mexer com o humor. Foi isso que pesquisadores da Deakin University, na Austrália, testaram (Jacka et al., 2017).

Eles pegaram 67 adultos com depressão moderada a grave, a maioria já em tratamento com remédio ou terapia. Metade recebeu 7 consultas com nutricionista para melhorar a alimentação (mais verdura, legume, fruta, grão integral, leguminosa, peixe, azeite, oleaginosas; menos doce, fritura e ultraprocessado). A outra metade recebeu encontros de apoio social, com o mesmo número de visitas.

Depois de 12 semanas:

  • 32,3% do grupo da alimentação entrou em remissão (sintomas mínimos);
  • contra 8,0% do grupo de apoio social.

Os limites: foi um estudo pequeno, as pessoas sabiam o que estavam fazendo, e a alimentação foi somada ao tratamento, não colocada no lugar dele. Ninguém deve parar remédio por causa desse estudo. Mas ele mostra que o prato entra na conta do humor.

Eixo intestino-cérebro e controle da fome

Aqui está a ligação que importa.

Quando o intestino está inflamado e o estresse está alto, o eixo intestino-cérebro fica “barulhento”. Você sente vontade de comer sem ter fome de verdade, principalmente doce e massa à noite. Não é falta de caráter. É um sistema de sinais desregulado.

E tem um dado animador. No estudo de Stanford com alimentos fermentados (iogurte natural, kefir, chucrute, kimchi, kombucha), 10 semanas comendo mais fermentados aumentaram a diversidade das bactérias do intestino e reduziram 19 proteínas inflamatórias no sangue, entre elas a interleucina-6 (Wastyk et al., 2021). Falamos mais desse estudo no artigo sobre intestino inflamado.

O que fazer na prática

  1. Trate o estresse como alimento. Se ele abre o intestino, 5 minutos de respiração lenta antes das refeições não são frescura.
  2. Coma fermentados todo dia. Iogurte natural, kefir, chucrute ou outro vegetal fermentado, em porções pequenas no começo.
  3. Monte o prato do estudo SMILES: verdura, legume, leguminosa, peixe, azeite, oleaginosas. Menos ultraprocessado.
  4. Durma. Sono curto bagunça os hormônios da fome e a vontade de doce no dia seguinte.
  5. Observe o padrão: anote por uma semana em que momentos a “fome” aparece. Se for sempre depois de estresse, não é fome de comida.

Quando procurar um médico

Ansiedade ou tristeza que duram mais de duas semanas, atrapalham o trabalho ou o sono, ou vêm com pensamentos de se machucar precisam de avaliação médica. No intestino, procure atendimento se houver sangue nas fezes, perda de peso sem explicação, dor forte ou diarreia que não passa.

Perguntas frequentes

O que é o eixo intestino-cérebro?
É a comunicação nos dois sentidos entre o intestino (e suas bactérias) e o cérebro, pelo nervo vago, pelos hormônios do estresse, pelo sistema imune e pelas substâncias produzidas pela microbiota.

Ansiedade pode mexer no intestino?
Sim. Num estudo da Universidade de Leuven, a expectativa de falar em público aumentou a permeabilidade do intestino de voluntários saudáveis, por meio do hormônio do estresse (CRH) e dos mastócitos.

É verdade que 90% da serotonina é produzida no intestino?
Estima-se que sim, mas essa serotonina age principalmente no próprio intestino e no corpo, não diretamente no cérebro.

Mudar a alimentação ajuda na depressão?
No estudo SMILES, melhorar a alimentação, somado ao tratamento habitual, levou mais pessoas à remissão (32,3% contra 8,0%). Não substitui o tratamento médico.

Referências

  1. Cryan JF, et al. The Microbiota-Gut-Brain Axis. Physiol Rev. 2019. PubMed →
  2. Vanuytsel T, et al. Psychological stress and corticotropin-releasing hormone increase intestinal permeability in humans by a mast cell-dependent mechanism. Gut. 2014. PubMed →
  3. Yano JM, et al. Indigenous Bacteria from the Gut Microbiota Regulate Host Serotonin Biosynthesis. Cell. 2015. PubMed →
  4. Caltech. Microbes Help Produce Serotonin in Gut. 2015. Ver fonte →
  5. Jacka FN, et al. A randomised controlled trial of dietary improvement for adults with major depression (the “SMILES” trial). BMC Med. 2017. PubMed →
  6. Wastyk HC, et al. Gut-microbiota-targeted diets modulate human immune status. Cell. 2021. PubMed →

Como este texto foi feito

Escrito com apoio de ferramentas de pesquisa e revisado pelo Dr. Renato Silveira, que conferiu cada número no estudo original (linkado nas referências) e responde pelo conteúdo. Política editorial.

Transparência: o autor é diretor-geral do grupo NewHealth / H9 Pharma. Este artigo é educativo e não recomenda produtos da empresa. Conflitos de interesse.

Este conteúdo é educativo e não substitui consulta individual com médico ou outro profissional de saúde.