Ultraprocessados engordam? O estudo do NIH que mediu 500 calorias a mais por dia
Internados por um mês, 20 adultos comeram à vontade duas dietas com nutrientes equivalentes. Com ultraprocessados, comeram cerca de 500 kcal a mais por dia.

Neste artigo
- Ultraprocessados e calorias: o que um estudo controlado mostrou
- O que é um alimento ultraprocessado
- Como o estudo foi feito: 1 mês de internação, comida à vontade
- Os resultados
- Por que isso acontece: o que se sabe e o que ainda não se sabe
- Os limites do estudo
- O que fazer na prática
- Quando procurar um médico
- Perguntas frequentes
Em resumo
- Com ultraprocessados à vontade, adultos comeram cerca de 508 kcal a mais por dia.
- Em 2 semanas, o peso subiu 0,9 kg nessa dieta e caiu 0,9 kg com comida pouco processada.
- Limite: 20 adultos internados, idade média de 31 anos e só 2 semanas por dieta.
Ultraprocessados e calorias: o que um estudo controlado mostrou
Num estudo do NIH, o instituto nacional de saúde dos Estados Unidos, 20 adultos internados comeram por 2 semanas uma dieta de ultraprocessados e por 2 semanas uma dieta de comida pouco processada, à vontade. Com ultraprocessados, comeram 508 calorias a mais por dia e ganharam em média 0,9 kg; com comida pouco processada, perderam em média 0,9 kg.
As refeições oferecidas tinham as mesmas calorias, açúcar, gordura, fibra e sódio. A diferença esteve no tipo de comida, e não apenas no quanto.
O que é um alimento ultraprocessado
Os pesquisadores usaram a classificação NOVA, criada por pesquisadores da Universidade de São Paulo. De forma simples:
- Comida de verdade (in natura ou pouco processada): arroz, feijão, ovo, carne, frutas, verduras, leite, aveia, castanhas.
- Ultraprocessados: produtos feitos em fábrica a partir de ingredientes que você não tem em casa, com aditivos como aromatizantes, corantes, emulsificantes e adoçantes. Biscoitos recheados, salgadinhos, refrigerantes, embutidos, pães de forma industrializados, cereais açucarados, refeições congeladas prontas.
Uma dica prática: se o rótulo tem uma lista longa de ingredientes com nomes que você não reconhece, provavelmente é ultraprocessado.
Como o estudo foi feito: 1 mês de internação, comida à vontade
Em 2019, o pesquisador Kevin Hall publicou na revista Cell Metabolism o primeiro estudo randomizado e controlado sobre ultraprocessados (Hall et al., 2019).
Participaram 20 adultos saudáveis, 10 homens e 10 mulheres, com peso estável, idade média de 31 anos. Eles ficaram internados por um mês no centro clínico do NIH, onde tudo o que comiam era controlado e pesado.
Funcionou assim:
- Durante 2 semanas, recebiam uma dieta de ultraprocessados.
- Durante outras 2 semanas, uma dieta de comida pouco processada.
- A ordem foi sorteada.
- As refeições oferecidas nas duas dietas tinham as mesmas calorias, densidade de energia, proteína, gordura, carboidrato, açúcar, sódio e fibra.
- E o mais importante: as pessoas podiam comer o quanto quisessem.
Para dar uma ideia, segundo o comunicado do NIH, um café da manhã ultraprocessado era um bagel com cream cheese e bacon de peru. Um café da manhã pouco processado era aveia com banana, nozes e leite desnatado (NIH via EurekAlert, 2019).
Os resultados
- Na dieta de ultraprocessados, as pessoas comeram 508 calorias a mais por dia.
- Desse extra, cerca de 280 calorias vieram de carboidrato e 230 de gordura. A proteína praticamente não mudou.
- Elas comeram mais rápido.
- Em 2 semanas de ultraprocessados, ganharam em média 0,9 kg.
- Em 2 semanas de comida pouco processada, perderam em média 0,9 kg.
- Quanto mais a pessoa comia, mais o peso mudava. A ligação entre as duas coisas foi forte.
Ninguém mandou comer mais. A comida estava ali, nas duas fases, com a mesma quantidade de nutrientes. O que mudou foi o tipo de comida, e o corpo respondeu comendo mais.
Kevin Hall descreveu o resultado como “uma diferença clara e consistente entre as duas dietas” e disse que esse foi o primeiro estudo a demonstrar causa, e não só associação.
Por que isso acontece: o que se sabe e o que ainda não se sabe
Aqui é preciso ser honesto: o estudo mostrou o que acontece, mas não provou por quê. O próprio Kevin Hall disse que ainda era preciso descobrir qual aspecto dos ultraprocessados afetou o comportamento das pessoas.
Mas o estudo dá pistas:
- Velocidade. As pessoas comeram mais rápido os ultraprocessados. Comida macia, que quase não precisa mastigar, desce rápido, e o sinal de saciedade demora a chegar ao cérebro.
- Saciedade enganada. Com a mesma quantidade de nutrientes no prato, o corpo pediu mais. É como se o “botão de desligar” da fome demorasse a funcionar.
- Proteína. O comunicado do NIH conta que pequenas diferenças de proteína entre as dietas podem explicar até metade da diferença de calorias. Isso reforça por que proteína no prato faz tanta diferença.
E tem a parte do intestino. Muitos ultraprocessados levam aditivos como emulsificantes, que num estudo com pessoas reduziram a diversidade das bactérias do intestino. Explicamos isso no artigo sobre intestino inflamado. O estudo de Hall não mediu o intestino, mas os dois achados juntos mostram que esse tipo de comida mexe com a fome e com a microbiota.
Os limites do estudo
- Foram só 20 pessoas. É pouco, embora cada uma tenha servido de comparação para ela mesma.
- As pessoas eram jovens, com média de 31 anos. Mulheres de 45 a 69 anos não foram estudadas especificamente.
- Foram só 2 semanas em cada dieta, num hospital. A vida real é diferente.
- As dietas não eram idênticas em proteína no que as pessoas de fato comeram, o que pode explicar parte do efeito.
- Comida de verdade dá mais trabalho e pode custar mais, como o próprio NIH reconheceu. Isso não muda o resultado, mas é uma barreira real.
O que fazer na prática
- Troque um ultraprocessado por dia. Não tente mudar tudo de uma vez. Comece pelo café da manhã: ovo, fruta, aveia, iogurte natural no lugar do pão de forma com requeijão.
- Coma devagar. Pouse o garfo entre as garfadas. Uma refeição de verdade deveria levar pelo menos 15 a 20 minutos.
- Coloque proteína em toda refeição. Ovo, frango, peixe, feijão, lentilha, queijo branco.
- Desconfie do “fit”, “light” e “zero”. Leia a lista de ingredientes, não a frente da embalagem.
- Cozinhe em lote. Separe 1 hora no fim de semana para deixar feijão, arroz, frango e legumes prontos. É o que torna a comida de verdade mais fácil que a congelada.
- Feche a janela de comer. Quem tem horário para comer belisca menos ultraprocessado. Veja o estudo de 12 meses com jejum sem contar calorias.
Quando procurar um médico
Se você sente que perde o controle diante de certos alimentos, come escondido, em grande quantidade e depois se sente culpada, converse com um médico ou psicólogo: pode ser compulsão alimentar, que tem tratamento. E se você tem diabetes, pressão alta ou doença renal, ajuste a alimentação com acompanhamento.
Perguntas frequentes
Ultraprocessados engordam?
No estudo de Hall (NIH, 2019), as pessoas comeram cerca de 508 calorias a mais por dia na dieta de ultraprocessados e ganharam 0,9 kg em 2 semanas. Na dieta pouco processada, perderam 0,9 kg.
Se as calorias forem iguais, o ultraprocessado engorda mais?
No estudo, as refeições oferecidas tinham as mesmas calorias e nutrientes. A diferença foi que as pessoas comeram mais quando a comida era ultraprocessada, e comeram mais rápido.
Como saber se um alimento é ultraprocessado?
Leia a lista de ingredientes. Se ela for longa e tiver aditivos que você não usaria em casa, como aromatizantes, emulsificantes, corantes e adoçantes, provavelmente é ultraprocessado.
Preciso cortar todos os ultraprocessados?
Não precisa ser tudo de uma vez. Trocar um por dia por comida de verdade já é um começo que dá para manter.
Referências
- Hall KD, Ayuketah A, Brychta R, et al. Ultra-Processed Diets Cause Excess Calorie Intake and Weight Gain: An Inpatient Randomized Controlled Trial of Ad Libitum Food Intake. Cell Metab. 2019;30(1):67-77.e3. PubMed →
- NIH / EurekAlert. Eating highly processed foods linked to weight gain. 2019. Ver fonte →
- Chassaing B, et al. Randomized Controlled-Feeding Study of Dietary Emulsifier Carboxymethylcellulose Reveals Detrimental Impacts on the Gut Microbiota and Metabolome. Gastroenterology. 2021. PubMed →
Como este texto foi feito
Escrito com apoio de ferramentas de pesquisa e revisado pelo Dr. Renato Silveira, que conferiu cada número no estudo original (linkado nas referências) e responde pelo conteúdo. Política editorial.
Transparência: o autor é diretor-geral do grupo NewHealth / H9 Pharma. Este artigo é educativo e não recomenda produtos da empresa. Conflitos de interesse.
Este conteúdo é educativo e não substitui consulta individual com médico ou outro profissional de saúde.
Alimentação naturalAlimentos fermentados reduzem a inflamação? O que mostrou o estudo de Stanford
Menopausa e metabolismoJejum intermitente depois dos 45: o que os estudos mostram na menopausa
Mente e comportamentoEixo intestino-cérebro: como o intestino influencia fome, humor e ansiedade