Omeprazol por muitos anos e vitamina B12: o que um estudo com 210 mil pessoas encontrou
Num estudo com 25.956 pessoas, usar remédio para acidez por 2 anos ou mais esteve ligado a mais falta de vitamina B12. Veja o que isso significa.

Neste artigo
Em resumo
- Usar remédio que corta o ácido do estômago por 2 anos ou mais esteve ligado a mais falta de vitamina B12.
- Entre quem tinha falta de B12, 12,0% usavam omeprazol e similares havia 2 anos ou mais; entre quem não tinha, 7,2%.
- Limite: é um estudo de associação; ele não prova que o remédio causou a falta, e ninguém deve parar o remédio por conta própria.
Pessoas que usaram omeprazol ou remédios da mesma família por dois anos ou mais tiveram 65% mais chance de receber o diagnóstico de falta de vitamina B12. É o que mostrou um estudo publicado no JAMA em 2013, que comparou 25.956 pacientes com deficiência de B12 a 184.199 pacientes sem a deficiência, todos atendidos pelo mesmo sistema de saúde na Califórnia (Lam et al., 2013).
O omeprazol, o pantoprazol, o esomeprazol e o lansoprazol estão entre os remédios mais usados no Brasil. Muita gente começa a tomar por uma azia passageira e continua por anos, sem reavaliar. Este artigo explica o que o estudo encontrou, por que o ácido do estômago importa para a B12 e o que fazer com essa informação.
Por que o ácido do estômago importa para a vitamina B12
A vitamina B12 dos alimentos (carne, peixe, ovo, leite) vem “grudada” nas proteínas da comida. Para o corpo conseguir aproveitá-la, o estômago precisa soltar essa vitamina. Quem faz esse trabalho é o ácido do estômago, junto com uma enzima que só funciona em ambiente ácido.
Pense numa bala dentro de uma embalagem bem fechada. O ácido é a tesoura. Sem a tesoura, a bala passa pelo intestino ainda embrulhada, e boa parte vai embora sem ser aproveitada.
Os remédios da família do omeprazol (chamados inibidores da bomba de prótons) funcionam justamente desligando boa parte da produção de ácido. Isso alivia a azia e protege a parede do estômago e do esôfago. Mas, em uso longo, a tesoura fica cega.
O que o estudo fez
Os pesquisadores da Kaiser Permanente do norte da Califórnia buscaram nos prontuários todas as pessoas que receberam um diagnóstico novo de falta de vitamina B12 entre janeiro de 1997 e junho de 2011. Foram 25.956 casos. Depois, compararam esse grupo com 184.199 pessoas sem a deficiência.
Para cada pessoa, eles olharam quanto remédio para acidez ela tinha retirado na farmácia antes do diagnóstico. Dois tipos foram analisados:
- Inibidores da bomba de prótons (omeprazol e similares);
- Bloqueadores H2 (a família da ranitidina e da famotidina), que também reduzem o ácido, de forma mais fraca.
O que eles encontraram
- 12,0% das pessoas com falta de B12 tinham usado omeprazol ou similar por 2 anos ou mais. No grupo sem deficiência, eram 7,2%.
- Usar esses remédios por 2 anos ou mais esteve associado a uma chance 65% maior de falta de B12 (razão de chances de 1,65).
- Com os bloqueadores H2 por 2 anos ou mais, a chance foi 25% maior (razão de chances de 1,25).
- A dose fez diferença: quem tomava mais de 1,5 comprimido por dia teve razão de chances de 1,95; quem tomava menos de 0,75 comprimido por dia, de 1,63.
Esse último ponto é importante. Quando o efeito cresce junto com a dose, a hipótese de que o remédio tem participação fica mais forte. Ainda assim, não vira prova.
A conclusão dos autores foi que o uso atual ou passado de remédios que reduzem o ácido esteve significativamente associado à falta de B12, e que isso deve entrar na conta quando o médico pesa riscos e benefícios desses medicamentos.
O que a falta de vitamina B12 pode causar
A B12 participa da formação do sangue e do funcionamento dos nervos. Quando falta, os sinais mais comuns são:
- cansaço que não melhora com descanso;
- formigamento ou dormência nas mãos e nos pés;
- anemia;
- dificuldade de memória e de concentração;
- língua lisa e dolorida.
O problema é que esses sintomas aparecem devagar e são fáceis de confundir com estresse, idade ou menopausa.
Os limites desse estudo
- É um estudo de associação, não um experimento. Ele mostra que as duas coisas andam juntas, mas não prova que o remédio causou a deficiência.
- Quem usa esses remédios pode ser diferente de quem não usa. Pessoas com problemas de estômago podem ter outras razões para absorver pouca B12. Em estudos desse tipo, nenhum ajuste estatístico elimina totalmente essa diferença.
- Os dados vêm da farmácia, não da boca. O estudo sabe que a pessoa retirou o remédio, não se tomou todos os comprimidos.
- População americana de um único sistema de saúde. A alimentação e o perfil de uso de remédios no Brasil podem ser diferentes.
Quando procurar um médico
Converse com o seu médico se você:
- toma omeprazol ou similar há mais de 2 anos sem reavaliação;
- sente cansaço, formigamento ou falhas de memória sem explicação;
- tem mais de 50 anos, é vegetariana ou usa metformina, situações em que a falta de B12 também é mais comum.
Um exame de sangue simples mede a B12. Se estiver baixa, a reposição é feita com orientação profissional.
Não pare o remédio por conta própria. Em algumas situações (esôfago de Barrett, úlcera, uso junto com anti-inflamatórios ou anticoagulantes), ele é necessário. Interromper de repente também pode trazer de volta a acidez com força. Qualquer redução deve ser planejada com o médico.
O que fazer na prática
- Revise a receita. Leve a caixa do remédio na próxima consulta e pergunte: “eu ainda preciso disso, nessa dose?”.
- Peça a dosagem de B12 se você usa o remédio há anos ou tem sintomas.
- Cuide do que causa a azia. Jantar pesado e tarde, deitar logo depois de comer, álcool e excesso de ultraprocessados pioram o refluxo em muita gente.
- Inclua fontes de B12 na rotina: ovos, peixes, carnes e laticínios, se você os consome.
O estômago faz parte do intestino que você precisa cuidar
A digestão começa no estômago. Quando ele não faz a parte dele, o que chega ao intestino chega diferente, e isso mexe com nutrientes, com a microbiota e até com o humor, como eu explico no artigo sobre o eixo intestino-cérebro e no artigo sobre intestino inflamado.
É por isso que, no Clube JeT Lovers, o jejum de comida vem junto com o cuidado com o intestino e com a rotina: horário de jantar, o que vai no prato e o que fica de fora. São 7 jejuns para você assumir o controle; o emagrecimento vem como consequência.
Entre na lista de espera do Clube JeT Lovers →
Perguntas frequentes
Omeprazol causa falta de vitamina B12?
O estudo de Lam e colaboradores (2013) encontrou associação: quem usou o remédio por 2 anos ou mais teve 65% mais chance de falta de B12. Por ser um estudo observacional, ele não prova causa.
Quanto tempo de uso preocupa?
No estudo, o risco maior apareceu com 2 anos ou mais de uso. Doses acima de 1,5 comprimido por dia tiveram a associação mais forte.
Devo parar o omeprazol?
Não por conta própria. Converse com o médico para reavaliar a necessidade e a dose, e para pedir a dosagem de B12.
Ranitidina e famotidina também afetam a B12?
No estudo, os bloqueadores H2 usados por 2 anos ou mais tiveram associação menor, de 25% a mais de chance.
Referências
- Proton pump inhibitor and histamine 2 receptor antagonist use and vitamin B12 deficiency. Lam JR, Schneider JL, Zhao W, Corley DA. JAMA. 2013;310(22):2435-2442.
Como este texto foi feito
Escrito com apoio de ferramentas de pesquisa e revisado pelo Dr. Renato Silveira, que conferiu cada número no estudo original (linkado nas referências) e responde pelo conteúdo. Política editorial.
Transparência: o autor é diretor-geral do grupo NewHealth / H9 Pharma. Este artigo é educativo e não recomenda produtos da empresa. Conflitos de interesse.
Este conteúdo é educativo e não substitui consulta individual com médico ou outro profissional de saúde.
Intestino e inflamaçãoIntestino inflamado: os 3 hábitos modernos que a ciência associa ao problema
Intestino e inflamaçãoEstresse mexe com o intestino? O que mostrou o estudo do medo de falar em público
Menopausa e metabolismoJejum intermitente depois dos 45: o que os estudos mostram na menopausa