Grelina, o hormônio da fome: por que a fome vem em ondas e passa sozinha
Estudos mostram que a grelina sobe nos horários em que você costuma comer e cai mesmo sem comida. Saber disso ajuda a atravessar a vontade.

Neste artigo
- Grelina e fome no jejum: o que dois estudos mediram
- O que é a grelina
- Estudo 1: a relação entre grelina e fome
- Estudo 2: o padrão da grelina em 24 horas de jejum
- O que os resultados indicam
- Os limites desses estudos
- O que fazer na prática durante um pico de fome
- Sinais de alerta: quando não esperar
- Perguntas frequentes
Em resumo
- A fome vem em ondas: a grelina sobe antes das refeições e cai sozinha, mesmo sem comida.
- Em 24 horas sem comer, a grelina teve cerca de 8 picos, nos horários habituais de refeição.
- Limite: estudos pequenos, com adultos jovens; mulheres de 45 a 69 anos não foram estudadas.
Grelina e fome no jejum: o que dois estudos mediram
Em 6 voluntários saudáveis que ficaram 24 horas sem comer, a grelina, conhecida como hormônio da fome, subiu perto dos horários em que eles costumavam fazer as refeições e depois caiu espontaneamente, sem nenhuma comida. Em outro estudo, de 2004, a grelina subiu antes do jantar em todos os voluntários, menos um, e a fome seguiu um desenho parecido.
Os dois resultados indicam que a fome não sobe sem parar até a próxima refeição: ela tende a vir em ondas.
O que é a grelina
A grelina é produzida principalmente no estômago. Ela viaja pelo sangue até o cérebro e manda um recado: “está na hora de comer”. Depois que você come, o nível dela cai.
Ela não trabalha sozinha. Do outro lado existe a leptina, produzida pela gordura do corpo, que manda o recado contrário: “já chega”. A fome que você sente é o resultado dessa conversa, somada ao seu humor, ao seu sono, ao seu estresse e ao seu intestino.
Estudo 1: a relação entre grelina e fome
Em 2004, o pesquisador David Cummings e colegas publicaram no American Journal of Physiology um estudo com uma ideia esperta (Cummings et al., 2004).
Os voluntários almoçaram num horário marcado. Depois disso, ficaram sem pistas de horário e sem pistas de comida, e só jantaram quando eles mesmos pediram. Entre o almoço e o jantar, os pesquisadores colheram sangue a cada 5 minutos e pediram que as pessoas marcassem a fome numa escala.
O que eles viram:
- Depois do almoço, a grelina caiu.
- Antes do jantar, ela subiu de novo em todos os voluntários, menos um.
- Isso aconteceu mesmo com intervalos bem diferentes entre almoço e jantar, de cerca de 5h20 a 7h05 (320 a 425 minutos).
- A fome das pessoas seguiu um desenho parecido com o da grelina ao longo do tempo.
Os autores concluíram que esse aumento antes da refeição, junto com a fome, é compatível com a ideia de que a grelina ajuda a dar o “start” na refeição.
Estudo 2: o padrão da grelina em 24 horas de jejum
Agora a parte que mais interessa a quem quer assumir o controle da fome.
Em 2005, pesquisadores europeus publicaram no European Journal of Endocrinology um estudo em que 6 voluntários saudáveis (3 mulheres) ficaram 24 horas sem comer, com coleta de sangue a cada 20 minutos (Natalucci et al., 2005).
O que aconteceu com a grelina:
- Ela subiu perto dos horários em que essas pessoas costumavam fazer as refeições…
- …e depois caiu espontaneamente, sem que ninguém comesse nada.
- Ao longo das 24 horas, ela teve cerca de 8 picos.
- E o nível geral de grelina foi diminuindo ao longo do jejum.
Os autores concluíram que, mesmo sem comida, a grelina manteve um desenho parecido com o de quem come três refeições por dia, e sugeriram que é principalmente o cérebro que comanda o início das refeições.
O que os resultados indicam
Junte os dois estudos:
- A fome e a grelina andam juntas (estudo 1).
- A grelina sobe no horário de costume e cai sozinha, mesmo sem comida (estudo 2).
A conclusão razoável é que muitas vezes a onda de fome também passa se você esperar. Mas atenção: o estudo de jejum mediu a grelina, não a fome. A ligação entre os dois vem do primeiro estudo. É uma explicação que faz sentido, não uma prova direta.
E tem um detalhe poderoso: se a onda aparece nos horários em que a pessoa costuma comer, faz sentido pensar que o seu hábito ensina a sua fome a que horas aparecer. Quem belisca o dia inteiro dá ao cérebro muitos “horários de costume”. Quem come em horários definidos dá menos. Isso é um raciocínio a partir dos estudos, não algo que eles testaram.
Isso ajuda a entender por que, no começo de um jejum, a fome aparece forte justamente nos horários antigos. E combina com o que se viu num estudo longo com horário fixo para comer: no estudo de 12 meses com jejum sem contar calorias, as pessoas comeram 425 calorias a menos por dia sem ninguém mandar.
Os limites desses estudos
- São estudos muito pequenos. O de jejum teve só 6 pessoas. O resumo do estudo de Cummings não informa o número total de voluntários.
- Foram feitos com pessoas jovens e saudáveis. O estudo de jejum teve média de idade de 25 anos e peso normal. Mulheres de 45 a 69 anos não foram estudadas.
- São estudos antigos (2004 e 2005), embora continuem sendo referência sobre o ritmo da grelina.
- O estudo de jejum não mediu a fome, só a grelina.
- Fome não é só grelina. Sono, estresse, emoções, intestino e o tipo de comida também mexem com ela. Falamos disso no artigo sobre o eixo intestino-cérebro e no artigo sobre jantar tarde.
O que fazer na prática durante um pico de fome
- Dê nome à onda. Quando a fome aparecer fora do horário, diga para você mesma: “isso é uma onda”. Só isso já tira a urgência.
- Espere 15 a 20 minutos. Beba um copo de água, um chá ou um café sem açúcar. Saia do lugar onde você está (principalmente se for a cozinha).
- Mude de atividade. Uma caminhada curta, um banho, arrumar uma gaveta. A onda passa mais rápido quando a cabeça está ocupada.
- Coma em horários fixos. Quanto mais regular for a sua rotina, menos “horários de costume” a sua fome aprende.
- Monte refeições que seguram. Proteína, verdura e gordura boa ajudam você a chegar à próxima refeição sem desespero.
- Durma. Noite mal dormida costuma deixar a fome do dia seguinte mais difícil de controlar.
Sinais de alerta: quando não esperar
Fome comum é desconfortável, mas não é perigosa. Agora, coma e procure ajuda se sentir tremedeira com suor frio, coração disparado, confusão, visão turva ou sensação de desmaio, principalmente se você usa insulina ou remédio para diabetes. Isso pode ser hipoglicemia, e não é uma onda para atravessar.
Converse com o médico antes de fazer jejum se você tem diabetes, está grávida ou amamentando, tem ou teve transtorno alimentar, ou tem alguma doença crônica.
Perguntas frequentes
O que é a grelina?
É um hormônio produzido principalmente no estômago que sinaliza ao cérebro que está na hora de comer. O nível dela sobe antes das refeições e cai depois que você come.
A fome passa se eu não comer?
Num estudo com 6 voluntários em jejum de 24 horas (Natalucci, 2005), a grelina subiu nos horários habituais de refeição e caiu sozinha, sem comida. O estudo não mediu a fome, mas outro estudo mostrou que fome e grelina costumam andar juntas.
Por que sinto fome sempre no mesmo horário?
Porque a grelina segue o horário em que você costuma comer. No estudo de jejum, ela subiu nos horários de refeição mesmo sem comida, e os autores atribuíram isso principalmente ao cérebro.
Quanto tempo dura uma onda de fome?
Os estudos não mediram isso em minutos. Na prática, esperar 15 a 20 minutos com água ou chá é uma forma segura de testar se é fome de verdade, exceto para quem tem risco de hipoglicemia.
Referências
- Cummings DE, Frayo RS, Marmonier C, Aubert R, Chapelot D. Plasma ghrelin levels and hunger scores in humans initiating meals voluntarily without time- and food-related cues. Am J Physiol Endocrinol Metab. 2004;287(2):E297-E304. PubMed →
- Natalucci G, Riedl S, Gleiss A, Zidek T, Frisch H. Spontaneous 24-h ghrelin secretion pattern in fasting subjects: maintenance of a meal-related pattern. Eur J Endocrinol. 2005;152(6):845-850. PubMed →
- Lin S, et al. Time-Restricted Eating Without Calorie Counting for Weight Loss in a Racially Diverse Population: A Randomized Controlled Trial. Ann Intern Med. 2023;176(7):885-895. PubMed →
Como este texto foi feito
Escrito com apoio de ferramentas de pesquisa e revisado pelo Dr. Renato Silveira, que conferiu cada número no estudo original (linkado nas referências) e responde pelo conteúdo. Política editorial.
Transparência: o autor é diretor-geral do grupo NewHealth / H9 Pharma. Este artigo é educativo e não recomenda produtos da empresa. Conflitos de interesse.
Este conteúdo é educativo e não substitui consulta individual com médico ou outro profissional de saúde.
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