Mente e comportamento

Grelina, o hormônio da fome: por que a fome vem em ondas e passa sozinha

Estudos mostram que a grelina sobe nos horários em que você costuma comer e cai mesmo sem comida. Saber disso ajuda a atravessar a vontade.

Mulher olhando a geladeira aberta à noite
Mulher olhando a geladeira aberta à noite. Foto: Egor Litvinov / Unsplash
Neste artigo
  1. Grelina e fome no jejum: o que dois estudos mediram
  2. O que é a grelina
  3. Estudo 1: a relação entre grelina e fome
  4. Estudo 2: o padrão da grelina em 24 horas de jejum
  5. O que os resultados indicam
  6. Os limites desses estudos
  7. O que fazer na prática durante um pico de fome
  8. Sinais de alerta: quando não esperar
  9. Perguntas frequentes

Em resumo

  • A fome vem em ondas: a grelina sobe antes das refeições e cai sozinha, mesmo sem comida.
  • Em 24 horas sem comer, a grelina teve cerca de 8 picos, nos horários habituais de refeição.
  • Limite: estudos pequenos, com adultos jovens; mulheres de 45 a 69 anos não foram estudadas.

Grelina e fome no jejum: o que dois estudos mediram

Em 6 voluntários saudáveis que ficaram 24 horas sem comer, a grelina, conhecida como hormônio da fome, subiu perto dos horários em que eles costumavam fazer as refeições e depois caiu espontaneamente, sem nenhuma comida. Em outro estudo, de 2004, a grelina subiu antes do jantar em todos os voluntários, menos um, e a fome seguiu um desenho parecido.

Os dois resultados indicam que a fome não sobe sem parar até a próxima refeição: ela tende a vir em ondas.

O que é a grelina

A grelina é produzida principalmente no estômago. Ela viaja pelo sangue até o cérebro e manda um recado: “está na hora de comer”. Depois que você come, o nível dela cai.

Ela não trabalha sozinha. Do outro lado existe a leptina, produzida pela gordura do corpo, que manda o recado contrário: “já chega”. A fome que você sente é o resultado dessa conversa, somada ao seu humor, ao seu sono, ao seu estresse e ao seu intestino.

Estudo 1: a relação entre grelina e fome

Em 2004, o pesquisador David Cummings e colegas publicaram no American Journal of Physiology um estudo com uma ideia esperta (Cummings et al., 2004).

Os voluntários almoçaram num horário marcado. Depois disso, ficaram sem pistas de horário e sem pistas de comida, e só jantaram quando eles mesmos pediram. Entre o almoço e o jantar, os pesquisadores colheram sangue a cada 5 minutos e pediram que as pessoas marcassem a fome numa escala.

O que eles viram:

  • Depois do almoço, a grelina caiu.
  • Antes do jantar, ela subiu de novo em todos os voluntários, menos um.
  • Isso aconteceu mesmo com intervalos bem diferentes entre almoço e jantar, de cerca de 5h20 a 7h05 (320 a 425 minutos).
  • A fome das pessoas seguiu um desenho parecido com o da grelina ao longo do tempo.

Os autores concluíram que esse aumento antes da refeição, junto com a fome, é compatível com a ideia de que a grelina ajuda a dar o “start” na refeição.

Estudo 2: o padrão da grelina em 24 horas de jejum

Agora a parte que mais interessa a quem quer assumir o controle da fome.

Em 2005, pesquisadores europeus publicaram no European Journal of Endocrinology um estudo em que 6 voluntários saudáveis (3 mulheres) ficaram 24 horas sem comer, com coleta de sangue a cada 20 minutos (Natalucci et al., 2005).

O que aconteceu com a grelina:

  • Ela subiu perto dos horários em que essas pessoas costumavam fazer as refeições…
  • …e depois caiu espontaneamente, sem que ninguém comesse nada.
  • Ao longo das 24 horas, ela teve cerca de 8 picos.
  • E o nível geral de grelina foi diminuindo ao longo do jejum.

Os autores concluíram que, mesmo sem comida, a grelina manteve um desenho parecido com o de quem come três refeições por dia, e sugeriram que é principalmente o cérebro que comanda o início das refeições.

O que os resultados indicam

Junte os dois estudos:

  1. A fome e a grelina andam juntas (estudo 1).
  2. A grelina sobe no horário de costume e cai sozinha, mesmo sem comida (estudo 2).

A conclusão razoável é que muitas vezes a onda de fome também passa se você esperar. Mas atenção: o estudo de jejum mediu a grelina, não a fome. A ligação entre os dois vem do primeiro estudo. É uma explicação que faz sentido, não uma prova direta.

E tem um detalhe poderoso: se a onda aparece nos horários em que a pessoa costuma comer, faz sentido pensar que o seu hábito ensina a sua fome a que horas aparecer. Quem belisca o dia inteiro dá ao cérebro muitos “horários de costume”. Quem come em horários definidos dá menos. Isso é um raciocínio a partir dos estudos, não algo que eles testaram.

Isso ajuda a entender por que, no começo de um jejum, a fome aparece forte justamente nos horários antigos. E combina com o que se viu num estudo longo com horário fixo para comer: no estudo de 12 meses com jejum sem contar calorias, as pessoas comeram 425 calorias a menos por dia sem ninguém mandar.

Os limites desses estudos

  • São estudos muito pequenos. O de jejum teve só 6 pessoas. O resumo do estudo de Cummings não informa o número total de voluntários.
  • Foram feitos com pessoas jovens e saudáveis. O estudo de jejum teve média de idade de 25 anos e peso normal. Mulheres de 45 a 69 anos não foram estudadas.
  • São estudos antigos (2004 e 2005), embora continuem sendo referência sobre o ritmo da grelina.
  • O estudo de jejum não mediu a fome, só a grelina.
  • Fome não é só grelina. Sono, estresse, emoções, intestino e o tipo de comida também mexem com ela. Falamos disso no artigo sobre o eixo intestino-cérebro e no artigo sobre jantar tarde.

O que fazer na prática durante um pico de fome

  1. Dê nome à onda. Quando a fome aparecer fora do horário, diga para você mesma: “isso é uma onda”. Só isso já tira a urgência.
  2. Espere 15 a 20 minutos. Beba um copo de água, um chá ou um café sem açúcar. Saia do lugar onde você está (principalmente se for a cozinha).
  3. Mude de atividade. Uma caminhada curta, um banho, arrumar uma gaveta. A onda passa mais rápido quando a cabeça está ocupada.
  4. Coma em horários fixos. Quanto mais regular for a sua rotina, menos “horários de costume” a sua fome aprende.
  5. Monte refeições que seguram. Proteína, verdura e gordura boa ajudam você a chegar à próxima refeição sem desespero.
  6. Durma. Noite mal dormida costuma deixar a fome do dia seguinte mais difícil de controlar.

Sinais de alerta: quando não esperar

Fome comum é desconfortável, mas não é perigosa. Agora, coma e procure ajuda se sentir tremedeira com suor frio, coração disparado, confusão, visão turva ou sensação de desmaio, principalmente se você usa insulina ou remédio para diabetes. Isso pode ser hipoglicemia, e não é uma onda para atravessar.

Converse com o médico antes de fazer jejum se você tem diabetes, está grávida ou amamentando, tem ou teve transtorno alimentar, ou tem alguma doença crônica.

Perguntas frequentes

O que é a grelina?
É um hormônio produzido principalmente no estômago que sinaliza ao cérebro que está na hora de comer. O nível dela sobe antes das refeições e cai depois que você come.

A fome passa se eu não comer?
Num estudo com 6 voluntários em jejum de 24 horas (Natalucci, 2005), a grelina subiu nos horários habituais de refeição e caiu sozinha, sem comida. O estudo não mediu a fome, mas outro estudo mostrou que fome e grelina costumam andar juntas.

Por que sinto fome sempre no mesmo horário?
Porque a grelina segue o horário em que você costuma comer. No estudo de jejum, ela subiu nos horários de refeição mesmo sem comida, e os autores atribuíram isso principalmente ao cérebro.

Quanto tempo dura uma onda de fome?
Os estudos não mediram isso em minutos. Na prática, esperar 15 a 20 minutos com água ou chá é uma forma segura de testar se é fome de verdade, exceto para quem tem risco de hipoglicemia.

Referências

  1. Cummings DE, Frayo RS, Marmonier C, Aubert R, Chapelot D. Plasma ghrelin levels and hunger scores in humans initiating meals voluntarily without time- and food-related cues. Am J Physiol Endocrinol Metab. 2004;287(2):E297-E304. PubMed →
  2. Natalucci G, Riedl S, Gleiss A, Zidek T, Frisch H. Spontaneous 24-h ghrelin secretion pattern in fasting subjects: maintenance of a meal-related pattern. Eur J Endocrinol. 2005;152(6):845-850. PubMed →
  3. Lin S, et al. Time-Restricted Eating Without Calorie Counting for Weight Loss in a Racially Diverse Population: A Randomized Controlled Trial. Ann Intern Med. 2023;176(7):885-895. PubMed →

Como este texto foi feito

Escrito com apoio de ferramentas de pesquisa e revisado pelo Dr. Renato Silveira, que conferiu cada número no estudo original (linkado nas referências) e responde pelo conteúdo. Política editorial.

Transparência: o autor é diretor-geral do grupo NewHealth / H9 Pharma. Este artigo é educativo e não recomenda produtos da empresa. Conflitos de interesse.

Este conteúdo é educativo e não substitui consulta individual com médico ou outro profissional de saúde.