Sono e hormônios

Glicina antes de dormir: o que os estudos mediram e o que ainda falta provar

Glicina antes de deitar encurtou o tempo para pegar no sono e reduziu o cansaço do dia seguinte em estudos pequenos. Veja o que foi medido e os limites.

Mesa de cabeceira com abajur aceso à noite
Mesa de cabeceira com abajur aceso à noite. Foto: Lu / Unsplash
Neste artigo
  1. Estudo 1: glicina e qualidade do sono
  2. Estudo 2: glicina quando o sono é cortado
  3. Como a glicina pode agir no sono
  4. Os limites desses estudos
  5. Quando procurar um médico
  6. O que fazer na prática
  7. Dormir bem é o primeiro jejum da noite
  8. Perguntas frequentes

Em resumo

  • 3 gramas de glicina antes de deitar fizeram pessoas que dormiam mal pegar no sono mais rápido.
  • Num segundo estudo, com 7 homens dormindo menos que o normal, a glicina reduziu o cansaço e o tempo de reação no dia seguinte.
  • Limite: estudos pequenos, ligados a uma fabricante de glicina; a evidência ainda é inicial.

Pessoas que dormiam mal havia tempo tomaram 3 gramas de glicina antes de deitar e passaram a pegar no sono mais rápido e a chegar mais cedo ao sono profundo, segundo o exame de polissonografia, o “exame do sono” feito em laboratório. Elas também relataram dormir melhor, sentiram menos sono durante o dia e foram melhor em testes de memória. O estudo foi publicado em 2007 na revista Sleep and Biological Rhythms (Yamadera et al., 2007).

A glicina é um aminoácido, uma das peças que formam as proteínas. O corpo produz glicina, e ela aparece em boa quantidade no colágeno, na gelatina e no caldo de ossos.

Estudo 1: glicina e qualidade do sono

Os pesquisadores japoneses testaram 3 g de glicina antes de dormir em voluntários com queixa contínua de sono ruim. O que foi visto:

  • melhora da qualidade do sono relatada pelos voluntários;
  • melhor eficiência do sono (mais tempo dormindo do total de tempo deitado);
  • menos tempo para pegar no sono e para chegar ao sono de ondas lentas (o sono profundo), medido na polissonografia;
  • sem mudança na arquitetura do sono, ou seja, as fases do sono continuaram com a mesma organização;
  • menos sonolência durante o dia e melhor desempenho em testes de reconhecimento de memória.

Os autores sugeriram que a glicina age de um jeito diferente dos remédios para dormir tradicionais, como os benzodiazepínicos.

Um ponto honesto: o resumo do estudo não informa quantas pessoas participaram nem o desenho completo. Por isso, trate esse resultado como um sinal inicial.

Estudo 2: glicina quando o sono é cortado

Em 2012, outro grupo japonês testou a glicina numa situação comum: dormir menos do que o normal (Bannai et al., 2012).

  • Participantes: 10 homens saudáveis foram recrutados; 7 foram analisados (média de 40,6 anos).
  • Desenho: cada um tomou glicina e placebo em fases diferentes, em ordem sorteada.
  • Dose: 3 g, 30 minutos antes de deitar.
  • O corte de sono: o tempo na cama foi reduzido em 25% (média de 5,5 horas) por 3 noites seguidas.

O que eles encontraram:

  • No primeiro dia, a sensação de cansaço foi significativamente menor com glicina.
  • A sonolência teve só uma tendência de queda, sem chegar à significância.
  • No terceiro dia, as sensações relatadas não foram diferentes entre glicina e placebo.
  • Num teste de atenção, o tempo de reação foi menor com glicina no primeiro e no terceiro dias.

Como a glicina pode agir no sono

Ainda não se sabe com certeza. O cérebro tem um “relógio central”, uma pequena região que diz ao corpo a hora de dormir e de acordar. Pense nele como o maestro de uma orquestra.

No estudo de 2012, os pesquisadores também deram glicina a ratos. A melatonina e os genes do relógio não mudaram, mas dois sinais produzidos nessa região do maestro aumentaram de 3 a 4 vezes durante o período de luz. É uma pista de que a glicina conversa com o relógio do corpo. Mas é uma pista vinda de animais, não uma prova em pessoas.

Os limites desses estudos

  • São muito pequenos. No estudo de 2012, foram 7 pessoas analisadas. No de 2007, o resumo não informa o número.
  • Só homens no estudo de 2012. Mulheres na menopausa, que costumam ter mais queixas de sono, não foram estudadas.
  • Ligação com a indústria. Os participantes do estudo de 2012 eram funcionários da Ajinomoto, empresa que produz glicina, e o estudo de 2007 aparece na sala de imprensa da mesma empresa. Isso não invalida o resultado, mas pede cautela.
  • Efeitos curtos. No estudo de 2012, a diferença nas sensações sumiu no terceiro dia.
  • Não é tratamento de insônia. Nenhum desses estudos testou pessoas com insônia diagnosticada por médico.

Quando procurar um médico

Procure ajuda se você:

  • dorme mal na maior parte das noites há mais de 3 meses;
  • ronca alto ou acorda engasgada (pode ser apneia do sono);
  • acorda muitas vezes com calor ou suor;
  • usa remédio para dormir, ansiedade ou depressão e pensa em associar algum suplemento.

Grávidas, lactantes e pessoas com doença nos rins ou no fígado devem conversar com o médico antes de usar qualquer aminoácido em cápsula ou pó.

O que fazer na prática

  1. Arrume a base primeiro: horário fixo para deitar, quarto escuro e fresco, celular fora da cama.
  2. Jante mais cedo. Comer pesado perto de dormir atrapalha o sono, como eu explico no artigo sobre jantar tarde.
  3. Inclua fontes naturais de glicina na rotina, como caldo de ossos, gelatina sem açúcar e cortes de carne com colágeno.
  4. Se quiser testar glicina em suplemento, converse antes com um profissional. A dose usada nos estudos foi de 3 g antes de deitar; isso não é uma recomendação individual.

Dormir bem é o primeiro jejum da noite

Uma noite ruim deixa a fome do dia seguinte mais forte. Num estudo da Universidade de Chicago, duas noites curtas aumentaram a fome em 24%; eu conto os detalhes neste artigo.

No Clube JeT Lovers, o sono faz parte do método: o jejum de tela e de notícias prepara o corpo para dormir, e quem dorme bem atravessa o jejum de comida com menos luta. São 7 jejuns para você assumir o controle. O emagrecimento vem como consequência.

Entre na lista de espera do Clube JeT Lovers →

Perguntas frequentes

Glicina ajuda a dormir?
Em estudos japoneses pequenos, 3 g de glicina antes de deitar encurtaram o tempo para pegar no sono e reduziram o cansaço do dia seguinte. A evidência ainda é inicial.

Quanto de glicina foi usado nos estudos?
3 gramas antes de deitar; no estudo de 2012, 30 minutos antes. Converse com um profissional antes de usar.

Glicina vicia ou dá ressaca como remédio para dormir?
Os estudos não relataram isso, e os autores sugerem que ela age de forma diferente dos benzodiazepínicos. Mas foram estudos curtos e pequenos.

Colágeno tem glicina?
Sim. O colágeno é uma das proteínas mais ricas em glicina, assim como a gelatina e o caldo de ossos.

Referências

  1. Glycine ingestion improves subjective sleep quality in human volunteers, correlating with polysomnographic changes. Yamadera W, Inagawa K, Chiba S, et al. Sleep Biol Rhythms. 2007;5:126-131.
  2. The Effects of Glycine on Subjective Daytime Performance in Partially Sleep-Restricted Healthy Volunteers. Bannai M, Kawai N, Ono K, Nakahara K, Murakami N. Front Neurol. 2012;3:61.

Como este texto foi feito

Escrito com apoio de ferramentas de pesquisa e revisado pelo Dr. Renato Silveira, que conferiu cada número no estudo original (linkado nas referências) e responde pelo conteúdo. Política editorial.

Transparência: o autor é diretor-geral do grupo NewHealth / H9 Pharma. Este artigo é educativo e não recomenda produtos da empresa. Conflitos de interesse.

Este conteúdo é educativo e não substitui consulta individual com médico ou outro profissional de saúde.