Mente e comportamento

Probiótico e pensamentos negativos: o que um estudo de 4 semanas encontrou

Em 4 semanas, adultos que tomaram um probiótico tiveram menos ruminação diante da tristeza que o grupo placebo. Veja o estudo e os limites dele.

Tigela de iogurte com morangos
Tigela de iogurte com morangos. Foto: Joanna Stołowicz / Unsplash
Neste artigo
  1. O que é “reatividade cognitiva à tristeza”
  2. Como o estudo foi feito
  3. O que eles encontraram
  4. Como uma bactéria do intestino pode mexer com pensamento
  5. Os limites desse estudo
  6. Quando procurar um médico
  7. O que fazer na prática
  8. A cabeça que rumina também é a cabeça que belisca
  9. Perguntas frequentes

Em resumo

  • Um probiótico com várias bactérias reduziu a reação negativa à tristeza em adultos saudáveis.
  • Em 4 semanas, a queda veio principalmente de menos ruminação e menos pensamentos agressivos.
  • Limite: 40 pessoas sem depressão, medida por questionário; não serve como tratamento de ansiedade ou depressão.

Quarenta adultos saudáveis tomaram, por 4 semanas, um probiótico com oito cepas de bactérias ou um placebo inerte. Ao final, o grupo do probiótico teve uma redução significativa na chamada “reatividade cognitiva à tristeza”, um marcador de vulnerabilidade à depressão. A melhora veio principalmente de menos ruminação, aquele pensamento que fica girando em volta do mesmo problema. O estudo foi feito por pesquisadores holandeses e publicado em 2015 na revista Brain, Behavior, and Immunity (Steenbergen et al., 2015).

O que é “reatividade cognitiva à tristeza”

Todo mundo fica triste às vezes. A diferença está no que a cabeça faz depois.

Algumas pessoas sentem a tristeza e ela passa. Outras entram num ciclo: “por que isso sempre acontece comigo?”, “eu devia ter feito diferente”, “vai dar errado de novo”. Esse ciclo é a ruminação. Quem reage assim com mais facilidade tem, segundo a psicologia, mais risco de desenvolver depressão no futuro.

Os pesquisadores mediram isso com um questionário validado, o LEIDS-r (Índice de Leiden de Sensibilidade à Depressão, versão revisada). Ele pergunta, por exemplo, como a pessoa costuma pensar quando está para baixo.

Como o estudo foi feito

  • Participantes: 40 adultos saudáveis, sem transtorno de humor no momento.
  • Divisão: 20 receberam o probiótico e 20 receberam placebo, por sorteio.
  • Triplo-cego: o estudo foi desenhado para que nem os participantes nem a equipe soubessem quem estava tomando o quê.
  • Duração: 4 semanas.
  • O probiótico: uma mistura de oito cepas, entre elas Bifidobacterium bifidum W23, Bifidobacterium lactis W52, Lactobacillus acidophilus W37, Lactobacillus brevis W63, Lactobacillus casei W56, Lactobacillus salivarius W24 e Lactococcus lactis (W19 e W58).
  • Medida: o questionário LEIDS-r antes e depois.

O que eles encontraram

  • O grupo do probiótico teve uma redução significativa da reatividade cognitiva à tristeza em comparação com o placebo.
  • A queda foi explicada principalmente por menos ruminação e menos pensamentos agressivos.

Os autores descreveram o resultado como a primeira evidência de que um probiótico pode ajudar a reduzir os pensamentos negativos ligados ao humor triste, e pediram mais estudos sobre o uso de probióticos na prevenção da depressão.

Como uma bactéria do intestino pode mexer com pensamento

O intestino e o cérebro conversam o tempo todo. Essa conversa passa pelo nervo vago, por hormônios, pelo sistema de defesa do corpo e pelas substâncias que as bactérias do intestino produzem. Eu explico essas quatro vias com calma no artigo sobre o eixo intestino-cérebro.

Uma comparação simples: imagine que o intestino é uma cozinha e o cérebro é a sala. Se a cozinha está bagunçada e soltando fumaça, quem está na sala sente o cheiro, mesmo sem ver o que está acontecendo. Quando a cozinha se arruma, a sala também fica mais tranquila.

Esse estudo não mediu como o probiótico agiu. Ele mostrou o efeito no questionário, não o caminho. O mecanismo é uma explicação possível, não algo que ele provou.

Os limites desse estudo

  • Pequeno: 40 pessoas, 20 em cada grupo.
  • Pessoas saudáveis: ninguém tinha depressão ou ansiedade diagnosticada. O resultado não mostra efeito em quem já está doente.
  • Medido por questionário: mostra como a pessoa diz que pensa, não um exame de sangue ou de imagem.
  • Curto: 4 semanas. Não se sabe se o efeito se mantém.
  • Um produto específico: o resultado vale para essa mistura de cepas, não para qualquer probiótico da farmácia.
  • Fornecimento do produto: o probiótico e o placebo foram fornecidos pela empresa Winclove, informação declarada no próprio artigo.

Quando procurar um médico

Probiótico não é tratamento de ansiedade nem de depressão. Procure um médico ou psicólogo se você:

  • sente tristeza ou desânimo na maior parte dos dias por mais de duas semanas;
  • perdeu o interesse por coisas de que gostava;
  • tem crises de ansiedade, falta de ar ou coração disparado sem causa aparente;
  • tem pensamentos de se machucar. Nesse caso, ligue para o CVV, no 188, a qualquer hora.

Quem usa antidepressivo ou tem imunidade baixa deve conversar com o médico antes de tomar qualquer probiótico.

O que fazer na prática

  1. Comece pela comida. Iogurte natural, kefir, coalhada e vegetais fermentados levam bactérias vivas para o intestino. Num estudo de Stanford, mais fermentados por 10 semanas reduziram marcadores de inflamação; eu conto neste artigo.
  2. Alimente as bactérias boas com fibra: feijão, lentilha, aveia, verduras, frutas com casca.
  3. Perceba a ruminação. Quando o pensamento começar a girar, dê nome a ele: “estou ruminando”. Depois, mude de atividade: uma caminhada curta, um banho, uma tarefa com as mãos.
  4. Se for usar um probiótico, escolha com orientação profissional e saiba que o efeito depende da cepa.

A cabeça que rumina também é a cabeça que belisca

Ruminação e fome emocional são parentes. O pensamento que gira sem parar costuma terminar na geladeira, no celular ou na compra por impulso.

No Clube JeT Lovers eu trabalho as duas pontas: o intestino, com comida de verdade e jejum, e a mente, com o jejum de notícias, de tela e de companhias que pesam. São 7 jejuns para você assumir o controle. O emagrecimento vem como consequência.

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Perguntas frequentes

Probiótico ajuda na ansiedade?
Num estudo com 40 adultos saudáveis (Steenbergen, 2015), um probiótico de várias cepas reduziu a ruminação diante da tristeza em 4 semanas. O estudo não testou pessoas com ansiedade diagnosticada.

Qualquer probiótico tem esse efeito?
Não dá para afirmar. O resultado vale para a mistura de oito cepas usada no estudo.

Probiótico substitui antidepressivo?
Não. Nenhum estudo citado aqui sustenta isso. Não interrompa nenhum tratamento sem falar com o seu médico.

Alimentos fermentados fazem o mesmo efeito?
Esse estudo não testou alimentos. Fermentados levam bactérias vivas ao intestino e já mostraram reduzir inflamação em outro estudo, mas o efeito no humor não foi medido.

Referências

  1. A randomized controlled trial to test the effect of multispecies probiotics on cognitive reactivity to sad mood. Steenbergen L, Sellaro R, van Hemert S, Bosch JA, Colzato LS. Brain Behav Immun. 2015;48:258-264. doi:10.1016/j.bbi.2015.04.003

Como este texto foi feito

Escrito com apoio de ferramentas de pesquisa e revisado pelo Dr. Renato Silveira, que conferiu cada número no estudo original (linkado nas referências) e responde pelo conteúdo. Política editorial.

Transparência: o autor é diretor-geral do grupo NewHealth / H9 Pharma. Este artigo é educativo e não recomenda produtos da empresa. Conflitos de interesse.

Este conteúdo é educativo e não substitui consulta individual com médico ou outro profissional de saúde.