Dormir pouco aumenta a fome: o que duas noites curtas fizeram com os hormônios
Duas noites com 4 horas na cama aumentaram a fome em 24% e a vontade de doces e massas num estudo da Universidade de Chicago. Entenda o mecanismo.

Neste artigo
Em resumo
- Duas noites dormindo pouco aumentaram a fome em 24% e o apetite em 23%, mesmo com a comida controlada.
- O hormônio da saciedade (leptina) caiu 18% e o da fome (grelina) subiu 28%.
- Limite: 12 homens jovens e só 2 noites; mulheres 45+ não foram estudadas.
Depois de duas noites com apenas 4 horas na cama, 12 homens jovens e saudáveis sentiram 24% mais fome e tiveram 23% mais apetite do que depois de duas noites com 10 horas na cama. A vontade de comer alimentos calóricos e ricos em carboidrato (doces, salgadinhos, massas) subiu entre 33% e 45%. O estudo foi feito na Universidade de Chicago e publicado em 2004 nos Annals of Internal Medicine (Spiegel et al., 2004).
O dado mais interessante: durante o estudo, a quantidade de comida e a atividade física eram controladas. A fome aumentou sem que o corpo tivesse recebido menos comida.
Como o estudo foi feito
- Participantes: 12 homens saudáveis, com média de 22 anos e peso normal (IMC médio de 23,6).
- Desenho: cada um passou pelas duas situações, em ordem sorteada (estudo cruzado).
- Sono curto: 2 noites com 4 horas na cama. Na média, eles dormiram 3 horas e 53 minutos.
- Sono longo: 2 noites com 10 horas na cama. Na média, dormiram 9 horas e 8 minutos.
- Medidas: leptina e grelina no sangue ao longo do dia, e questionários de fome e de vontade de cada tipo de alimento.
O que aconteceu com os hormônios
Depois do sono curto, em comparação com o sono longo:
- A leptina, que avisa o cérebro “já temos energia guardada, pode parar”, caiu 18%.
- A grelina, que avisa “está na hora de comer”, subiu 28%.
- A relação entre grelina e leptina aumentou 71%, segundo o comunicado da universidade.
- A fome subiu 24% e o apetite, 23%.
- A vontade de alimentos calóricos e ricos em carboidrato subiu de 33% a 45%. Doces, salgadinhos e massas foram os mais desejados. A vontade de frutas, verduras e laticínios subiu bem menos.
Os autores concluíram que dormir pouco, em homens jovens e saudáveis, está associado a menos leptina, mais grelina e mais fome e apetite.
Por que isso importa para quem quer controlar a fome
Imagine que a fome é uma balança com dois pesos. De um lado, a grelina empurra para comer. Do outro, a leptina segura. Uma noite mal dormida tira peso do lado que segura e coloca peso do lado que empurra. Você não ficou mais fraca. A balança é que ficou torta.
Isso explica uma cena comum: depois de uma noite ruim, o dia inteiro parece pedir pão, doce e café com açúcar. Não é falta de força de vontade. É química.
A grelina também segue os horários em que você costuma comer, como eu mostro no artigo sobre as ondas de fome. Somando os dois estudos, sono e horário regular são dois dos ajustes mais simples para deixar a fome mais previsível.
Os limites desse estudo
- Muito pequeno: 12 pessoas.
- Só homens jovens. Mulheres, especialmente depois dos 45, quando o sono costuma piorar, não foram estudadas.
- Só 2 noites. Não mostra o que acontece com meses de sono curto.
- Gasto de energia não foi medido, limitação apontada pelos próprios autores.
- Fome medida por questionário. O estudo não mediu quanto as pessoas comeriam se pudessem escolher livremente.
Quando procurar um médico
Procure ajuda se você:
- dorme mal na maior parte das noites há mais de 3 meses;
- ronca alto, acorda engasgada ou alguém já viu você parar de respirar dormindo;
- acorda muitas vezes com calor ou suor (comum na menopausa);
- sente sono forte durante o dia, a ponto de cochilar dirigindo ou trabalhando.
Esses sinais podem indicar insônia, apneia do sono ou alterações hormonais que têm tratamento.
O que fazer na prática
- Proteja um horário fixo para deitar. O corpo gosta de rotina, tanto para a fome quanto para o sono.
- Feche a cozinha cedo. Jantar pesado perto da hora de dormir atrapalha o sono e, como eu explico no artigo sobre jantar tarde, também mexe com a fome.
- Desligue a tela antes de deitar. O celular na cama empurra o horário de dormir para frente sem você perceber.
- Depois de uma noite ruim, planeje o dia. Já saiba o que vai comer, com proteína e verdura, para não decidir com a fome no comando.
- Café só até o começo da tarde, se você percebe que ele atrapalha o seu sono.
O jejum começa na noite anterior
Quem dorme mal começa o dia com a balança da fome torta. Aí qualquer jejum vira uma luta.
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Perguntas frequentes
Dormir pouco dá fome?
Num estudo com 12 homens jovens (Spiegel, 2004), duas noites com 4 horas na cama aumentaram a fome em 24% e o apetite em 23%, em comparação com noites de 10 horas na cama.
Por que dá vontade de doce depois de uma noite mal dormida?
No mesmo estudo, a vontade de alimentos calóricos e ricos em carboidrato subiu de 33% a 45%. A leptina (saciedade) caiu e a grelina (fome) subiu.
Isso vale para mulheres na menopausa?
O estudo foi feito só com homens jovens. O mecanismo é plausível para mulheres, mas não foi testado nesse estudo.
Quantas horas preciso dormir?
Esse estudo comparou 4 e 10 horas na cama; ele não define uma meta ideal. Se você acorda cansada, vale conversar com um médico.
Referências
- Brief communication: Sleep curtailment in healthy young men is associated with decreased leptin levels, elevated ghrelin levels, and increased hunger and appetite. Spiegel K, Tasali E, Penev P, Van Cauter E. Ann Intern Med. 2004;141(11):846-850.
- Sleep loss boosts appetite, may encourage weight gain. Comunicado da University of Chicago Medical Center, via ScienceDaily, dezembro de 2004.
Como este texto foi feito
Escrito com apoio de ferramentas de pesquisa e revisado pelo Dr. Renato Silveira, que conferiu cada número no estudo original (linkado nas referências) e responde pelo conteúdo. Política editorial.
Transparência: o autor é diretor-geral do grupo NewHealth / H9 Pharma. Este artigo é educativo e não recomenda produtos da empresa. Conflitos de interesse.
Este conteúdo é educativo e não substitui consulta individual com médico ou outro profissional de saúde.
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